A missão Polaris Dawn vem chamando muita atenção por um motivo inédito: ela deve incluir a primeira caminhada espacial realizada por viajantes espaciais comerciais. Há vários fatores que tornam esse voo um marco - e, como acontece com metas tão ousadas, isso também traz um certo nível de risco.
Com apoio da SpaceX, empresa de Elon Musk, a missão não terá astronautas profissionais na tripulação. A bordo estarão um empresário, um piloto de caça e dois funcionários da SpaceX.
O voo também simboliza um caminho paralelo que está ganhando força na órbita terrestre: missões financiadas de forma privada, em contraste com o programa Artemis dos EUA, apoiado pelo governo, que pretende levar humanos de volta à Lua.
Tripulação e cronograma da missão Polaris Dawn
Atualmente, os quatro integrantes da Polaris Dawn estão programados para decolar em uma cápsula SpaceX Crew Dragon a partir do Kennedy Space Center, na Flórida, na quarta-feira, 28 de agosto.
O comandante da nave é Jared Isaacman, empresário norte-americano que vai voar pela segunda vez em uma missão comercial da SpaceX. O piloto será Scott Poteet, tenente-coronel aposentado da Força Aérea dos EUA. Sarah Gillis atuará como especialista de missão e é a engenheira-chefe de operações espaciais na SpaceX.
Anna Menon completa a tripulação como especialista de missão e oficial médica. Assim como Gillis, ela é funcionária da SpaceX, lidera operações espaciais e atua como diretora de missão na empresa.
A missão deve durar cinco dias. Nesse período, a tripulação vai se afastar da Terra mais do que qualquer ser humano desde as missões Apollo, alcançando até 1.400 km de altitude.
Experimentos e comunicação a laser em órbita
Além da caminhada espacial, a tripulação atravessará trechos dos cinturões de radiação de Van Allen - regiões ao redor da Terra com partículas carregadas de alta energia. Isso permitirá realizar testes voltados a compreender os efeitos da radiação espacial sobre a saúde humana.
Outros experimentos incluem um estudo sobre como os olhos e o sistema visual reagem à microgravidade. Os tripulantes também vão experimentar um sistema de comunicação a laser no espaço, gerando dados para futuras tecnologias de comunicação que podem ser usadas em missões à Lua e a Marte.
Como será a caminhada espacial (EVA) no Crew Dragon
A caminhada espacial, chamada formalmente de atividade extraveicular (EVA), está prevista para ser feita por Gillis em conjunto com Isaacman.
Ela será diferente do modelo ao qual o público se acostumou na Estação Espacial Internacional (ISS), onde geralmente dois astronautas saem enquanto o restante permanece dentro da estrutura pressurizada.
A cápsula Dragon tem uma escotilha, e não uma câmara de descompressão. Por isso, quando Isaacman e Gillis saírem pela escotilha para realizar a EVA a cerca de 700 km acima da Terra, todo o interior da nave precisará ser despressurizado e ficará exposto ao vácuo do espaço.
Como consequência, os quatro integrantes receberão suporte de vida pelos trajes espaciais durante todo o período em que a EVA estiver em andamento.
Os trajes de EVA usados pela tripulação foram projetados pela SpaceX e serão empregados pela primeira vez neste voo. Eles são bem mais aerodinâmicos do que os trajes utilizados por astronautas da NASA na ISS. O desenho do traje mais antigo da NASA, chamado Extravehicular Mobility Unit, mudou muito pouco ao longo de mais de 40 anos.
Ainda assim, parte do volume dos trajes da NASA se explica pelo fato de incluírem um sistema de suporte de vida em uma mochila. Já na caminhada espacial da Polaris Dawn, Isaacman e Gillis receberão suporte de vida por meio de tubos longos, conhecidos como umbilicais, conectados à cápsula.
Objetivos ambiciosos
A importância da EVA da Polaris Dawn é difícil de exagerar. Caminhadas espaciais ficaram restritas a viajantes apoiados por governos desde que Alexei Leonov se tornou, em 1965, o primeiro ser humano a sair de uma cápsula espacial, na missão soviética Voskhod 2. A primeira caminhada espacial feita por uma tripulação totalmente comercial marca um ponto-chave na história dos voos espaciais.
Ao mesmo tempo, os objetivos ambiciosos tornam a missão mais arriscada. Embora todos os integrantes sejam extremamente competentes e tenham recebido treinamento adequado, não há astronautas profissionais a bordo para orientar decisões. Além disso, para três dos quatro tripulantes, esta será a primeira viagem ao espaço.
Mesmo com esses riscos, a Polaris Dawn é um projeto inspirador. Hoje em dia, é comum ouvir críticas do tipo: "em vez de ir ao espaço, por que pessoas ricas não doam parte do dinheiro para quem precisa na Terra?"
Na Inspiration4 - a primeira viagem espacial de Jared Isaacman, também em uma cápsula Crew Dragon - o empresário arrecadou mais de US$240 milhões (£181 milhões) para o St Jude Children's Research Hospital, em Memphis, Tennessee. Nesta missão, ele pretende repetir esse resultado.
O site da Polaris Dawn permite que usuários da internet doem ao St Jude Children's Research Hospital, com o objetivo de melhorar a detecção e o tratamento do câncer infantil em todo o mundo. Os tripulantes também conduzirão vários experimentos relacionados à saúde durante o voo, buscando contribuir para o avanço da pesquisa médica.
Esta é a primeira de três missões de um Programa Polaris financiado de forma privada. À medida que mais missões comerciais acontecerem, o custo para acessar a órbita deve cair. Isso tende a democratizar o voo espacial, abrindo espaço para pessoas que não sejam astronautas profissionais nem super-ricas.
A expectativa é que isso também motive as gerações mais jovens a enxergar o espaço não como a fronteira final, mas como uma expansão natural da presença humana para além dos limites da Terra.
A missão usará a nave Dragon chamada Resilience, o mesmo veículo que, em 2020, realizou a primeira missão completa a lançar astronautas dos EUA a partir de solo americano depois da aposentadoria do ônibus espacial da NASA, uma década antes.
A ligação entre as conquistas do passado e os resultados incríveis do presente é a parte mais instigante desta história. Pelo menos é assim que eu vejo, como alguém que cresceu na era Apollo e, aparentemente agora, como membro da geração Artemis.
Simonetta Di Pippo, Diretora do Space Economy Evolution Lab, Universidade Bocconi
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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