Mesmo em algumas das ilhas mais isoladas do Pacífico, um em cada três peixes costeiros consumidos por comunidades locais tem partículas de plástico.
O resultado desloca o foco do problema global do plástico: em vez de estar “lá longe”, no alto-mar ou em litorais industrializados, ele aparece no prato do dia a dia.
As evidências vêm de peixes retirados diretamente de áreas de pesca comunitária em Fiji, Tonga, Tuvalu e Vanuatu - locais em que capturas de recife e de zonas próximas à costa sustentam a alimentação.
Ao registrar plástico no interior desses animais, Jasha Dehm e colegas da Universidade do Pacífico Sul (USP) ligaram a contaminação ao que as comunidades costeiras efetivamente capturam e comem.
O sinal, porém, não foi uniforme em toda a região: Fiji se destacou tanto pela frequência de contaminação quanto pela constância com que ela apareceu entre diferentes espécies.
Essa diferença delimita o que vem a seguir e reforça a necessidade de entender onde a exposição se concentra e quais características ecológicas tornam certos peixes mais suscetíveis.
Níveis elevados de contaminação em Fiji
Fiji apresentou o dado mais expressivo: 74.46% dos peixes amostrados tinham plástico no trato digestivo.
A urbanização costeira e cidades mais densas fazem com que o lixo chegue aos rios; depois, as tempestades empurram esses resíduos para recifes próximos da costa.
Uma síntese global recente também encontrou plástico em 49% dos peixes no mundo, com média de 3.5 peças por peixe.
No conjunto, o estudo indica que o volume de plástico que termina na pescaria depende menos da distância e mais do controlo local de resíduos.
Peixes de recife acumulam mais plástico
Peixes de recife e espécies que se alimentam no fundo tiveram maior probabilidade de conter plástico do que espécies de águas abertas capturadas ao longo da mesma costa.
Fragmentos pequenos podem afundar ou ficar presos em algas; assim, peixes que raspam superfícies, peneiram sedimentos ou atacam presas acabam engolindo essas partículas durante a alimentação.
Como os recifes ficam junto ao litoral, saídas de esgoto, portos e depósitos de lixo podem carregar a água adjacente com fibras flutuantes.
Essa relação entre habitat e exposição ajuda gestores a direcionar a monitorização para os peixes que as pessoas capturam com mais frequência.
Dieta e escolhas de caça
O tipo de dieta e a forma de caça fizeram diferença: peixes que perseguem presas na coluna d’água tendem a encontrar menos partículas do que espécies que pastam ou raspam.
Já os peixes que consomem invertebrados ingeriram mais plástico, porque revolvem fundos arenosos onde as partículas se acumulam e se misturam.
Duas espécies comuns de recife, Lethrinus harak e Parupeneus barberinus, apareceram nas quatro amostragens e refletiram o mesmo risco associado ao modo de alimentação.
Alertas baseados em traços ecológicos ainda deixam espaço para decisão: uma família pode preferir peixe de recife, enquanto outra opta por peixe de mar aberto.
Plástico na forma de fibras
As fibras foram o tipo predominante de plástico encontrado nos peixes, representando 65-95% das partículas em todos os países.
Muitas dessas fibras enquadram-se como microplásticos - partículas com menos de 0.2 polegada (cerca de 0,5 cm) - e podem desprender-se de roupas e de cordas.
Estações de tratamento podem não reter os filamentos mais finos, e linhas de pesca se desfiam no mar, acrescentando ainda mais fibras nas áreas onde os peixes se alimentam.
Rufino Varea, cientista ambiental da Rede de Ação Climática das Ilhas do Pacífico, afirmou que os resultados mostram que fibras de roupas e de equipamentos de pesca estão entrando na comida que as pessoas consomem - e não apenas chegando às faixas de areia.
Riscos para a saúde humana
A preocupação é particularmente imediata nas refeições com frutos do mar, já que muitas famílias no Pacífico dependem do peixe para proteína, renda e tradição.
Considerando todos os países, os peixes apresentaram uma carga média de 0.76 mais ou menos 0.05 partículas, em sua maioria no intestino.
A Organização Mundial da Saúde já relatou que partículas muito pequenas de plástico podem persistir no corpo e podem desencadear respostas inflamatórias.
Ainda faltam dados mais claros sobre com que frequência essas partículas migram para a carne comestível e quais doses se tornam relevantes ao longo do tempo.
Criando medições padronizadas
A amostragem padronizada deu à região do Pacífico uma linha de base, substituindo relatos dispersos que usavam métodos e unidades diferentes.
Os investigadores dissolveram o tecido do intestino dos peixes para que restassem apenas fragmentos rígidos; depois, contaram o material ao microscópio com controlos rigorosos de contaminação.
Ao aplicar o mesmo protocolo em vários países, tornou-se possível comparar ilhas entre si - e não apenas aldeias dentro de um mesmo país.
Esse nível de consistência oferece às lideranças um ponto de partida para acompanhar mudanças e eleva o padrão para estudos futuros.
O lixo local faz diferença
Vanuatu chamou atenção pelo motivo oposto: apenas 4.80% dos peixes analisados apresentaram plástico no intestino.
Correntes e barreiras de recife podem manter a poluição perto da fonte; além disso, ações locais de limpeza e recolha podem reduzir o vazamento de resíduos.
Os autores sugeriram dispersão limitada ou vias diferentes de entrada na cadeia alimentar, em vez de uma relação simples com o lixo visível nas praias.
Essa variabilidade ajuda a explicar por que soluções únicas não funcionam: cada ilha enfrenta combinações próprias de escoamento superficial, correntes e capacidade de gestão de resíduos.
Negociações de tratado e escolhas locais
Negociações internacionais buscam agora reduzir a poluição por plástico, e um comité do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estabeleceu o cronograma.
Os dados do Oceano Pacífico podem tornar mais precisas as exigências do Tratado Global sobre Plásticos, incluindo limites para novo plástico e para aditivos perigosos.
“Combinado com grandes lacunas de dados em toda a região, isso torna a evidência gerada localmente essencial à medida que as negociações do Tratado Global sobre Plásticos avançam e são traduzidas em políticas nacionais”, disse a Dra. Amanda Ford, cientista marinha na USP.
Mesmo antes de qualquer tratado entrar em vigor, as ilhas podem reduzir a exposição ao melhorar a recolha, modernizar o tratamento de esgoto e reduzir importações de plástico.
Os resultados ligam a pesca de todos os dias às fontes de poluição - de fibras libertadas na lavagem de roupas e de equipamento gasto a sistemas frágeis de gestão de resíduos.
A ampliação da monitorização e de testes em tecidos pode esclarecer a exposição humana, enquanto as negociações pressionam por limites a montante e por infraestrutura local mais robusta.
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