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Como a Candida albicans pode ajudar o melanoma a espalhar-se

Cientista em laboratório segurando placa de petri com colônias, ao lado de notebook e microscópio.

O cancro costuma ser retratado como uma doença provocada por genes danificados, tabagismo ou poluição tóxica. Embora esses elementos sejam relevantes, eles não explicam tudo.

Um conjunto cada vez maior de estudos indica que o cancro também pode ser moldado pela vida microscópica que já habita o corpo humano.

Os cientistas estimam que infeções estejam associadas a cerca de 13 a 18% dos casos de cancro no mundo.

Nessa conversa, vírus e bactérias há muito tempo ocupam o centro do debate, e alguns já são reconhecidos como causadores de cancro. No entanto, um outro grupo de organismos recebeu bem menos atenção: os fungos.

A Agência Internacional para Pesquisa em Cancro (IARC) sugere que certos fungos comuns podem influenciar discretamente o comportamento dos cancros, mesmo sem provocar uma infeção evidente.

Uma espécie bastante conhecida, Candida albicans, vem despertando interesse especial por aparentemente facilitar a disseminação do melanoma - a forma mais letal de cancro de pele - pelo organismo.

Ligação entre fungo e cancro

A Candida albicans geralmente faz parte da microbiota humana normal. Ela pode estar presente na boca, na pele, no sistema digestivo e na vagina. Na maior parte do tempo, isso não causa danos. O problema surge quando o crescimento foge ao controlo.

“Este fungo faz parte da microbiota humana; encontra-se na boca, na pele, no sistema digestivo e na vagina; embora normalmente não cause doença, por vezes causa problemas graves”, afirmou a coautora do estudo, Leire Aparicio Fernández, investigadora e docente da Universidade do País Basco.

Nas últimas décadas, os cientistas começaram a associar a Candida albicans à progressão do cancro.

Um novo estudo do grupo de investigação MicrobiomicsEHU apresenta evidências robustas sobre como essa influência pode ocorrer no melanoma, o tipo mais agressivo de cancro de pele.

Como a Candida albicans ajuda o melanoma a espalhar-se

Os investigadores analisaram de que forma a Candida albicans interage diretamente com células de melanoma. Os resultados indicaram que células fúngicas vivas aumentam a capacidade de movimento e de adesão das células tumorais.

Quando o movimento aumenta, as células cancerígenas conseguem alcançar outros órgãos e formar metástases. Não foi observado aumento na multiplicação celular, o que indica que o cancro não se tornou mais rápido a crescer - mas sim mais fácil de se disseminar.

“O fungo faz com que as células cancerígenas tenham maior capacidade de migrar e criar metástases. No entanto, em relação à proliferação, não detetámos qualquer alteração”, disse Aparicio.

Experiências adicionais mostraram que células de melanoma expostas à Candida albicans libertam mais VEGF, uma molécula que estimula o crescimento de vasos sanguíneos. Com mais vasos, há maior fornecimento de oxigénio e nutrientes, criando condições favoráveis para a disseminação do cancro.

Sinais internos que impulsionam a disseminação

No interior das células tumorais, a Candida albicans ativa determinados sistemas internos de controlo. Esses sistemas funcionam como instruções que orientam o comportamento celular. Após o contacto com o fungo, dois sistemas importantes passam a ficar ativos.

Um deles ajuda as células a responder ao stress e a deslocar-se com mais facilidade. Ao ser ativado, as células cancerígenas passam a produzir mais proteínas associadas ao movimento e ao uso de energia. Essas mudanças favorecem a chegada do cancro a novos locais.

O outro sistema, por sua vez, normalmente auxilia a sobrevivência celular quando os níveis de oxigénio diminuem. Quando entra em ação, as células tumorais tornam-se mais aptas a viver em condições difíceis. A sobrevivência torna-se mais fácil mesmo em áreas com pouco oxigénio.

Ambos os sistemas também ativam um interruptor de controlo chamado AP-1. O composto AP-1 orienta as células a produzir substâncias que ajudam na formação de novos vasos sanguíneos. Mais vasos significam mais oxigénio e nutrientes. Esse aporte extra contribui para que o cancro se espalhe mais rapidamente pelo corpo.

Como as células detetam o fungo

As células de melanoma identificam a Candida albicans por meio de recetores específicos na sua superfície. Os recetores do tipo Toll têm um papel central na deteção da presença do fungo.

Quando esses recetores são ativados, desencadeiam cascatas de sinalização internas que aumentam a libertação de VEGF. Um outro recetor, o EphA2, estimula a produção de c-Fos, um componente essencial do AP-1.

Células fúngicas vivas provocam respostas mais intensas do que células fúngicas inativas. A viabilidade do fungo permite a secreção de moléculas que estimulam inflamação e sinalização. Já as células mortas pelo calor não desencadeiam efeitos semelhantes, o que mostra que o comportamento ativo do fungo faz diferença.

Mudanças de energia dentro das células cancerígenas

A Candida albicans também modifica o metabolismo das células tumorais. Quando ocorre contacto com o fungo, as células de melanoma passam a favorecer a glicólise aeróbia.

A glicólise aeróbia permite produzir energia rapidamente mesmo quando a disponibilidade de oxigénio cai. Essa alteração metabólica sustenta movimento e invasão.

Durante a exposição ao fungo, observa-se maior captação de glicose e mais produção de lactato. Ao bloquear o transporte de glicose ou a glicólise, a libertação de VEGF diminui, evidenciando uma ligação forte entre o uso de energia e a formação de vasos sanguíneos.

A p38 MAPK tem um papel central no controlo de genes metabólicos como HK2 e ENO2. O HIF-1 alfa apoia a libertação de VEGF, mas aparenta ter menor controlo sobre a expressão de genes metabólicos.

Fungos e a reformulação da investigação sobre cancro

Os resultados do grupo MicrobiomicsEHU chamam a atenção para um fator pouco considerado na progressão do cancro: os fungos.

“Discutimos amplamente vírus e bactérias, mas esquecemo-nos dos fungos. Precisamos ter em mente que eles vivem connosco; fazem parte da nossa microbiota”, afirmou Aparicio.

Os fungos podem influenciar o cancro sem causar infeção. A simples presença pode alterar o comportamento do tumor, o que sugere que as interações entre fungos e células cancerígenas podem moldar a forma como os tumores crescem e respondem ao ambiente ao redor. Compreender essas ligações pode ampliar opções futuras de tratamento.

Segundo os investigadores, este trabalho abre caminho para abordagens alternativas, incluindo a possibilidade de que medicamentos antifúngicos possam um dia servir como tratamentos complementares para cancros como o melanoma.

A investigação em curso no MicrobiomicsEHU agora avalia efeitos em células de cancro do cólon e do intestino. Como os cancros variam muito, cada situação exige estudo cuidadoso.

Dado o impacto global do cancro, os investigadores reforçam a importância de explorar toda e qualquer terapia potencial capaz de abrandar a progressão da doença.

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