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Estudo recente sugere oceano oculto em Miranda, lua de Urano, e possível vida extraterrestre

Cientista observa projeção holográfica do planeta e sua estrutura interna em laboratório espacial.

Um estudo recente aponta para uma possibilidade empolgante: Miranda, uma das luas de Urano que orbita nas regiões mais distantes do nosso Sistema Solar, pode abrigar um mar escondido sob a sua crosta gelada - o que levantaria a hipótese de um ambiente potencialmente favorável à vida extraterrestre.

Encontrar água numa lua já é um desafio por si só. A dificuldade aumenta ainda mais quando esse mundo está a centenas de milhões de quilómetros de distância.

Quem ajudou a abrir essa janela para o que pode existir sob o gelo foi Tom Nordheim, cientista planetário do Laboratório de Física Aplicada da Johns Hopkins (JHAPL).

“Encontrar evidências de um oceano dentro de um objeto pequeno como Miranda é incrivelmente surpreendente”, disse Nordheim, coautor do estudo.

A análise da equipa mexe com o que se pensava saber sobre Miranda e, ao mesmo tempo, coloca novas perguntas sobre a possibilidade de vida em outros corpos celestes.

A paisagem estranha de Miranda

Volte a 1986: foi quando a Voyager 2, a sonda arrojada da NASA, enviou as primeiras imagens de perto de Miranda. E o que apareceu era, no mínimo, impressionante.

O cenário parecia uma colagem improvável, como se partes de diferentes mundos tivessem sido costuradas num só.

Com sulcos profundos, escarpas enormes e áreas enigmáticas em forma de trapézio - conhecidas como coronae -, Miranda se apresentava como um espetáculo geológico. A questão era: o que teria criado uma superfície tão variada?

Qual é a história de Urano?

Urano é um dos planetas menos compreendidos do Sistema Solar. Ao contrário dos demais, ele “gira de lado”: o seu eixo de rotação fica quase paralelo ao plano da órbita.

Essa inclinação extrema gera estações fora do comum - imagine um planeta em que cada polo passa 42 anos sob luz solar contínua e, depois, 42 anos mergulhado na escuridão.

Os cientistas suspeitam que, no início da sua história, uma colisão gigantesca com um objeto do tamanho da Terra pode ter derrubado Urano.

Também chama atenção a atmosfera do planeta, rica em materiais gelados como água, amónia e metano. É o metano que dá a Urano o seu tom característico azul-esverdeado.

Além disso, Urano tem um conjunto de anéis tênues e pelo menos 27 luas, muitas batizadas com nomes de personagens de Shakespeare, como Miranda - foco deste texto - e Ariel.

Mesmo tendo sido descoberto em 1781 por William Herschel, Urano ainda guarda muitos mistérios, e os investigadores querem avançar na exploração para compreender melhor esses mundos distantes e congelados.

Oceano oculto na lua Miranda

Caleb Strom, pós-graduando da Universidade de Dakota do Norte, e Alex Patthoff, do Instituto de Ciência Planetária, no Arizona, juntaram-se a Nordheim neste estudo.

Para enfrentar o enigma, eles agiram como detetives num caso antigo: voltaram às imagens da Voyager 2 e aplicaram técnicas modernas de modelagem computacional para reconstituir o passado geológico de Miranda.

À medida que Strom e a equipa mapeavam os elementos complexos da superfície e testavam cenários para a estrutura interna da lua, começou a surgir um quadro inesperado.

Os resultados indicam que, entre 100 e 500 milhões de anos atrás, Miranda provavelmente manteve um oceano subterrâneo com pelo menos 62 milhas (cerca de 100 km) de profundidade, sob uma crosta congelada com não mais que 19 milhas (aprox. 31 km) de espessura.

“Esse resultado foi uma grande surpresa para a equipa”, afirmou Strom. A ideia de que uma lua tão pequena como Miranda pudesse conter um oceano tão extenso não era algo esperado pelos cientistas.

Forças de maré em Miranda

O que complica ainda mais a história é que esse oceano poderia ter permanecido quente o suficiente para continuar líquido, apesar da distância enorme de Miranda em relação ao Sol.

O provável responsável é uma espécie de dança gravitacional entre Miranda e outras luas próximas, todas em órbita de Urano.

Esse mecanismo, chamado de ressonância orbital, pode gerar atrito e calor no interior da lua - energia suficiente para sustentar um oceano abaixo do gelo.

Miranda ainda pode ter um oceano líquido?

O caso, porém, está longe de encerrado. A equipa considera que o interior de Miranda não congelou por completo. Se isso tivesse acontecido, certos sinais na superfície deveriam existir - e eles simplesmente não aparecem.

Por isso, há uma possibilidade real de que Miranda ainda mantenha um oceano subterrâneo, embora provavelmente mais fino do que no passado.

“Mas a sugestão de um oceano dentro de uma das luas mais distantes do Sistema Solar é notável”, observou Strom.

E não seria a primeira vez que uma lua pequena desafia as expectativas. Em 2004, Encélado, lua de Saturno, revelou géiseres ativos lançando vapor de água e gelo para o espaço, apontando para a existência de um oceano oculto. Hoje, Encélado é um dos principais alvos na busca por vida extraterrestre.

A lua Miranda poderia sustentar vida?

Ainda é cedo para imaginar uma visita a Miranda, mas a hipótese de um ambiente habitável é tentadora. Mesmo assim, como Nordheim ressalta, faltam dados para confirmar com segurança se esse oceano de fato existe.

Embora pesquisas recentes tenham trazido novas pistas sobre as luas de Urano, o conhecimento disponível continua limitado.

“Estamos extraindo o último pedaço de ciência que conseguimos das imagens da Voyager 2”, diz Nordheim.

Para avaliar de verdade o potencial de Miranda, seria necessário enviar novas missões a Urano. Até lá, resta acompanhar esta lua gelada com expectativa.

Miranda, mundos oceânicos e vida extraterrestre

No panorama do Sistema Solar, Miranda pode ser a história improvável que ninguém imaginava.

Essa lua pequena, por muito tempo considerada um mundo congelado e sem atividade, talvez esconda um oceano vasto sob uma superfície fragmentada.

A possibilidade de um corpo tão diminuto, em órbita de um dos planetas mais distantes, conter um ambiente capaz de sustentar vida é, no mínimo, impressionante.

Tudo isso reforça quanto ainda falta descobrir. Ao revisitar dados antigos com novas ferramentas, surgem oportunidades e dúvidas inéditas.

Talvez já esteja na hora de voltar a Urano e observar Miranda e as suas luas vizinhas com mais atenção.

O estudo completo foi publicado na Revista de Ciência Planetária.

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