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Orcas do grupo Menacho na Corrente de Humboldt, no Chile, caçam golfinhos-escuros

Orca e três golfinhos nadando próximos a um barco com pessoa tirando fotos no oceano.

Na Corrente de Humboldt, ao largo da costa do Chile, um grupo misterioso de orcas foi visto despedaçando uma presa que ninguém esperava.

Em mais de uma ocasião, cientistas e colaboradores da ciência cidadã acompanharam esses predadores ágeis e eficientes enquanto se alimentavam de golfinhos-escuros (Lagenorhynchus obscurus). Foi a primeira vez que orcas (Orcinus orca) foram registradas caçando essa espécie de golfinho na Corrente de Humboldt - algo que surpreendeu a cientista marinha Ana Maria García Cegarra, da Universidade de Antofagasta (Chile), que liderou um estudo sobre o fenômeno.

Caça inesperada na Corrente de Humboldt

O que chamou ainda mais atenção, porém, foi o que aconteceu depois da captura: as orcas dividiram e compartilharam a presa de um modo que lembra o comportamento de uma família humana - com a mãe segurando a carcaça na boca para que o filhote pudesse morder.

"Apenas em 2020 um artigo mostrou orcas caçando leões-marinhos sul-americanos, mas não sabíamos que elas também poderiam predar outros mamíferos marinhos, como golfinhos e até baleias!", disse García Cegarra à ScienceAlert.

"Mas o mais impressionante foi observar, com o uso de um drone, o comportamento de compartilhar a carne do golfinho entre os membros do grupo de orcas. Observamos como a mãe e o filhote se alimentam primeiro e, depois, o macho adulto. Foi como um ritual de partilha de comida semelhante ao dos humanos quando comemos aos domingos com nossa avó e nosso avô. Lembro que, quando eu era criança, minha avó costumava me servir primeiro e só depois os adultos comiam."

Partilha da presa e comportamento social das orcas

Ainda sabemos muito pouco sobre orcas. Elas existem no mundo todo e, apesar de estarem reunidas sob uma única designação de espécie, não são todas iguais. Populações diferentes seguem rotas migratórias distintas e exploram presas diferentes. Algumas preferem peixes; outras, baleias; outras, focas.

Também há pequenas diferenças físicas e dialetos próprios. Esses grupos não se misturam nem cruzam entre si e podem até ser distinguidos geneticamente. Tudo indica que estejam se separando em espécies diferentes - se é que isso já não aconteceu - e, para compreendê-las e protegê-las, precisamos entender como cada grupo (um ecótipo) se diferencia dos demais.

Na Corrente de Humboldt, há um conjunto de orcas que circula pela região e é conhecido como grupo Menacho - e ele é especialmente pouco compreendido. Não está claro se se trata de um ecótipo por si só ou se faz parte de um grupo maior. Para reduzir essas lacunas, García Cegarra e seus colegas vêm realizando levantamentos e reunindo registros de avistamentos feitos por ciência cidadã, com o objetivo de observar esses animais impressionantes em seu habitat natural.

No total, foram documentados 28 avistamentos de orcas no sistema da Corrente de Humboldt - e, em duas dessas ocasiões, elas foram observadas e fotografadas enquanto comiam golfinhos-escuros.

Esse não é o primeiro registro de orcas se alimentando de cetáceos e repartindo a presa. Esse tipo de comportamento já havia sido visto ao largo da Nova Zelândia e da Argentina. Ainda assim, nunca tinha sido observado no grupo Menacho - nem no Oceano Pacífico Sul.

O que isso revela sobre ecótipos, conservação e a IUCN

O achado pode indicar que o grupo Menacho pertença ao mesmo ecótipo das orcas da Nova Zelândia e da Argentina, conhecido como Tipo A. Há outros pontos em comum: as orcas da Argentina também caçam leões-marinhos - assim como o grupo Menacho. Se o grupo Menacho realmente for do ecótipo Tipo A, isso significaria que esse conjunto de orcas ocupa uma área muito maior do que se imaginava.

"O fato de termos orcas especialistas em mamíferos marinhos na Corrente de Humboldt pode indicar que elas provavelmente pertencem ao ecótipo A do Hemisfério Sul. No entanto, os ecótipos no Hemisfério Sul foram descritos principalmente em torno da Antártica", explicou García Cegarra.

"Se comprovamos que esse ecótipo é especialista em mamíferos marinhos e possui uma técnica de caça especial nunca observada em outros grupos, isso será exclusivo desse grupo e deverá ser considerado como um grupo separado para proteção e conservação."

Atualmente, as orcas não têm um status de conservação definido pela IUCN; elas aparecem como "dados insuficientes" devido à falta de informações. Não sabemos quantas existem nem se os números populacionais estão estáveis.

O registro de orcas do grupo Menacho caçando golfinhos-escuros é mais uma peça desse quebra-cabeça. A disponibilidade de presas é um ponto central na conservação, e as atividades humanas podem afetar a área de ocorrência e a distribuição não apenas das orcas, mas também dos animais dos quais elas dependem para sobreviver.

"Todos os esforços de pesquisa são necessários para que possamos atribuir a elas um status de conservação", afirmou García Cegarra à ScienceAlert.

"A existência de uma orca recém-nascida na área indica que este não é apenas um local de alimentação, mas também uma área de amamentação. Devemos avaliar quais atividades humanas podem colocar em risco a sobrevivência desse recém-nascido, pois elas se alimentam em áreas onde a pesca artesanal e industrial ocorre ao mesmo tempo e, portanto, a probabilidade de colisão com embarcações ou captura acidental pode ser iminente.

"Um status de conservação para orcas é necessário para propor estratégias de conservação que melhorem sua saúde."

A pesquisa foi publicada na revista Frontiers in Marine Science.

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