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Novo estudo do Human Connectome Project (HCP) encontra diferenças sexuais na microestrutura do cérebro e relação com saúde mental

Dois cientistas analisando imagens holográficas de cérebros em laboratório com equipamentos médicos.

Esforços para identificar diferenças sexuais entre cérebros humanos acabaram alimentando um debate sobre o que - se é que algo - explica distinções aparentes no nosso comportamento e na saúde mental.

Um novo exame de dados de neuroimagem reunidos no âmbito do Human Connectome Project (HCP) trouxe o que pode ser o maior conjunto de variações ligadas ao sexo já observado em estruturas microscópicas situadas em regiões profundas do cérebro de homens e mulheres.

A partir do que já se sabe sobre onde aparecem os contrastes mais marcantes, a equipa internacional responsável pelo trabalho defende que os resultados podem ajudar a compreender melhor por que muitas condições neurológicas parecem ocorrer de forma diferente conforme o sexo.

"As regiões do cérebro e as medidas que mostraram as maiores diferenças também estão fortemente associadas a transtornos de saúde mental", afirma o autor sénior Richard Watts, cientista de dados da University of Canterbury, na Nova Zelândia.

"Esta descoberta pode ajudar a explicar por que homens e mulheres têm riscos diferentes para transtornos específicos, como transtornos de ansiedade e do humor, autismo e transtorno do défice de atenção com hiperatividade."

Apesar de, à primeira vista, parecerem diferenças nítidas, seres humanos do sexo masculino e feminino são surpreendentemente parecidos para uma espécie de primata.

Organizar as pequenas “montanhas” estatísticas relacionadas a sexualidade em categorias bem definidas é notoriamente complicado. Isso tem levado cientistas a procurar métodos cada vez mais precisos para avaliar se condições como autismo ou transtorno de ansiedade realmente se correlacionam com o sexo - ou se os resultados são orientados por uma série de vieses.

Diferenças neuropsiquiátricas entre homens e mulheres, no passado, foram em grande parte atribuídas a variações no volume cerebral, sugerindo que as divergências refletiriam mais o tamanho do que a “ligação” interna do cérebro.

Embora haja pouca dúvida de que o “espaço” neurológico influencia uma parcela importante do comportamento humano, alguns estudos que controlam sexo e tamanho do cérebro ainda detectam um efeito residual que não é facilmente descartado.

O que o Human Connectome Project (HCP) revelou sobre diferenças sexuais no cérebro

Foi nesse contexto que Watts e a sua equipa recorreram a exames de ressonância magnética (MRI) de mais de 1.000 participantes do estudo HCP Young Adult (Jovens Adultos). O objetivo foi investigar as microestruturas de regiões subcorticais do cérebro e relacioná-las ao sexo informado pelos próprios participantes e ao estado de saúde mental também autorrelatado.

Técnica de ressonância magnética de difusão e microestrutura subcortical

Com uma técnica avançada de MRI de difusão - que mapeia o movimento da água através da arquitetura celular específica de diferentes tecidos cerebrais -, os investigadores encontraram diferenças pequenas, porém significativas, entre subgrupos masculinos e femininos. Esses contrastes persistiram mesmo após ajustarem as análises por idade, IMC e volume cerebral total.

Além disso, medidas baseadas nas avaliações que os próprios participantes fizeram dos seus estados emocionais e comportamentais sugeriram uma ligação entre estruturas neurológicas associadas a memória, atenção e emoção e transtornos que envolvem humor, atenção e personalidade.

"Trabalhos anteriores concentraram-se em diferenças ligadas ao sexo nos volumes das regiões cerebrais, mas, ao usar tecnologia de imagem mais avançada, a nossa equipa, que inclui colegas da University of California San Diego, descobriu que há diferenças muito maiores na estrutura celular dessas regiões, com apenas uma pequena sobreposição observada entre os sexos", diz Watts.

Implicações para saúde mental e limitações do estudo

Em vez de simplesmente encaixar homens e mulheres em categorias patológicas, os autores argumentam que o estudo abre espaço para investigar a influência complexa de hormonas e dos seus recetores na “tapeçaria” neurológica dentro da nossa cabeça.

Os participantes foram questionados sobre o género, e não sobre o sexo biológico, mas tiveram apenas duas opções de resposta - masculino ou feminino -, o que limita comparações de estrutura cerebral para outras identidades de género.

Pesquisas futuras podem continuar a mapear como um espectro de género e sexualidade se relaciona com estados de personalidade, humor e emoção, ajudando a orientar diagnósticos ou escolhas terapêuticas de maneira mais individualizada.

"Gostaríamos de conseguir separar os efeitos de fatores biológicos, como hormonas e genética, e os efeitos de fatores ambientais, como a forma como somos socializados para pensar e agir de modo diferente como homem ou como mulher em sociedades que têm expectativas muito diferentes para cada género", afirma Watts.

Esta pesquisa foi publicada na PNAS.

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