Dois pterossauros pequenos estavam vivos e voando no que hoje é o nordeste do Brasil há cerca de 110 milhões de anos. Cada um tinha mais ou menos o porte de uma gaivota - e os dois acabaram virando refeição de algo muito maior.
O que veio depois parece improvável, até lembrar o quão caótica a natureza pode ser. Mais tarde, o predador regurgitou o que não conseguiu digerir - sobretudo os crânios - junto com quatro peixes engolidos em uma investida posterior.
Essa mistura regurgitada acabou fossilizando, ficou guardada por décadas em uma coleção de museu e, agora, trouxe à tona um visitante inesperado: um pterossauro filtrador em um lugar onde ninguém esperava encontrar esse tipo de animal.
A nova espécie recebeu o nome de Bakiribu waridza. A expressão significa “boca de pente” na língua Kariri e faz referência ao aparelho alimentar característico do bicho.
Encontrando Bakiribu waridza
Fósseis da Bacia do Araripe são coletados e analisados há gerações. A área é conhecida por preservar restos delicados, incluindo muitos pterossauros.
Justamente por isso, o achado pegou os pesquisadores de surpresa. Apesar de décadas de trabalho e de uma longa lista de répteis voadores descritos, nunca havia sido registrado ali um pterossauro desse tipo.
Rubi Vargas Pêgas é pesquisadora de pós-doutorado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP).
“Foi muito inesperado, porque os fósseis da região do Araripe são estudados há décadas e quase 30 tipos de pterossauros já tinham sido encontrados, nenhum deles filtrador”, disse Vargas Pêgas. “Não esperávamos encontrar uma nova família para essa região.”
O que diferencia esse animal é o seu modo de vida. Pterossauros filtradores são conhecidos por exibir dentes finos, muito numerosos e bem próximos entre si, parecidos com cerdas - funcionando mais como uma peneira biológica do que como os dentes afiados que costumamos associar a predadores.
A ideia é que esses pterossauros filtrassem pequenas presas aquáticas, como minúsculos crustáceos, diretamente da água.
Fóssil de pterossauro surpreendeu os cientistas
A Bacia do Araripe, no intervalo geológico em questão, costuma ser descrita como um ambiente com influência de água salgada. Já pterossauros filtradores, por outro lado, frequentemente são associados a cenários de água doce.
Essa aparente incompatibilidade ajuda a explicar por que a regurgitação fossilizada é tão importante. Ela pode esclarecer como um animal ligado a ambientes dulcícolas terminou preservado em um local que não combina com o que se imaginava sobre suas preferências de habitat.
Pêgas ressalta que o Araripe não era uma paisagem uniforme e interminável. Era uma área relativamente pequena, cercada por outros ambientes que talvez não tenham deixado muitos vestígios no registro fóssil.
“Era, portanto, um ambiente cercado por outros que não necessariamente foram preservados no registro fóssil. Essa espécie talvez nunca tivesse sido conhecida se não tivesse sido regurgitada no Araripe, conhecido pela preservação de seus fósseis”, disse Vargas Pêgas.
Em outras palavras, o animal pode ter vivido e se alimentado em algum lugar nas proximidades. Esse habitat, porém, talvez não fosse favorável à fossilização - e o pterossauro só apareceu no Araripe porque um predador o levou até lá.
Vômito fossilizado conta a história
O fóssil do pterossauro é descrito como um “regurgitalito”, isto é, basicamente vômito fossilizado. O bloco reúne partes de dois pterossauros e quatro peixes.
Os ossos dos pterossauros exibem desgaste compatível com exposição a ácidos gástricos, indicando que o predador começou a digerir o que engoliu antes de desistir das partes mais difíceis.
Os peixes, por sua vez, estavam em condição notavelmente boa. Isso sugere que foram consumidos depois dos pterossauros e não ficaram tanto tempo sendo “dissolvidos”.
A composição da refeição também aponta para um caçador oportunista, capaz de lidar com um cardápio variado.
Pista no alinhamento dos fósseis de pterossauro
Um detalhe chamou especialmente a atenção da equipe: os restos estavam alinhados na mesma orientação. Isso não é só uma curiosidade - pode indicar como o predador se alimentava.
“Hoje, aves piscívoras engolem os animais inteiros pela cabeça para evitar engasgar com as nadadeiras”, disse a coordenadora do estudo Aline Ghilardi, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
“Quem comeu o Bakiribu e os peixes provavelmente fez o mesmo, já que todos estão orientados na mesma direção.”
Esse padrão “pela cabeça” não identifica o predador por si só. Ainda assim, reforça a hipótese de que a presa foi engolida inteira, em vez de ser rasgada em pedaços. E também se encaixa no que se sabe sobre certos caçadores que viviam na região.
Identificando o comedor antigo
Os pesquisadores avaliaram alguns candidatos. O principal suspeito é um dinossauro espinossaurídeo, grupo conhecido por hábitos de alimentação com peixes.
Um nome citado foi Irritator challengeri. O predador teria porte suficiente para acomodar no estômago dois pterossauros pequenos, quatro peixes e, possivelmente, outras presas antes de regurgitar mais tarde o que era indigesto.
Uma segunda hipótese, considerada menos provável, é a de que o predador fosse outro pterossauro. Tropeognathus mesembrinus, com envergadura em torno de oito metros, seria grande o bastante para engolir répteis voadores menores.
Mesmo assim, a explicação envolvendo o dinossauro parece se ajustar melhor ao quadro geral, sobretudo por causa da refeição rica em peixes e da ecologia já conhecida dos espinossaurídeos.
Redescobrindo um fóssil esquecido
O fóssil não foi recém-escavado. Ele estava dentro de uma coleção de museu já existente, no Museu Câmara Cascudo, da UFRN, fora da própria região do Araripe.
A identificação aconteceu durante um levantamento de fósseis de peixes - o tipo de trabalho rotineiro que, às vezes, muda de escala quando um formato ósseo estranho chama a atenção.
“Peixes são organismos muito abundantes no registro fóssil do Araripe, o que talvez explique por que ninguém percebeu que, entre eles, havia um animal ainda desconhecido”, disse Vargas Pêgas.
Depois que o material foi reconhecido como de pterossauro, Ghilardi reuniu especialistas, e a equipe analisou o fóssil em Natal. O andamento foi rápido: em poucos dias, a primeira versão do artigo já estava redigida.
Lições de Bakiribu waridza
O bloco de rocha foi dividido em duas metades correspondentes. Uma permaneceu em Natal. A outra foi doada ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, da Universidade Regional do Cariri (URCA), em Santana do Cariri, Ceará - mais perto do local de origem do fóssil.
“Nós incorporamos um viés ético e decolonial neste trabalho. A transferência garante a preservação da peça em seu território de origem”, disse Ghilardi.
Bakiribu waridza pertence à família de pterossauros Ctenochasmatidae. Até agora, integrantes desse grupo eram conhecidos na Europa, no leste da Ásia e no sul da América do Sul, incluindo a Argentina.
A presença de um ctenocasmátido filtrador em ambiente tropical amplia a distribuição conhecida desses animais. Também sugere uma flexibilidade de habitat maior do que se supunha. E tudo isso veio à tona porque, há muito tempo, um predador não conseguiu manter o próprio almoço no estômago.
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