Imagine-se crescendo à beira do mar Mediterrâneo oriental há 14.000 anos. Você já domina a navegação em pequenas embarcações feitas por você e pelos moradores do seu vilarejo, e a sobrevivência vem tanto do mar quanto da terra.
Só que os tempos apertaram: já não há a mesma fartura de caça e de peixes que existia na sua infância. Talvez seja a hora de procurar alimento em outro lugar.
Agora pense em ir mais longe do que nunca nesse barco pequeno, talvez com a companhia de mais algumas pessoas. De repente, algo aparece no horizonte. Aquilo é uma ilha?
Uma ilha de elefantes e hipopótamos minúsculos
Bem-vindo a Chipre no momento em que o planeta sai da última era glacial. Você é o primeiro ser humano a contemplar esta ilha enorme, densamente arborizada e repleta de comida.
Ao encalhar a embarcação na praia para explorar, a cena parece inacreditável: hipopótamos do tamanho de um javali e elefantes com porte de cavalo - tão pequenos que, aos seus olhos, parecem filhotes. Há muitos deles, e você está faminto depois da travessia.
Esses animais reduzidos não aparentam medo. Você consegue abater alguns com facilidade e tenta conservar a carne o melhor possível para a longa viagem de volta.
De volta ao vilarejo, a descoberta é grande demais para guardar: você conta a todos o que encontrou. Não demora para que se organize uma expedição bem maior rumo à ilha.
Claro que nunca saberemos se essa sequência aconteceu exatamente assim, mas ela é uma forma plausível de ilustrar como - e quando - os primeiros humanos podem ter alcançado Chipre. Também ajuda a entender como a chegada humana poderia ter acelerado rapidamente o desaparecimento do pequeno hipopótamo Phanourios minor e do elefante anão Palaeoloxodon cypriotes.
“Gigantes” anões
Chipre não foi a única ilha do Mediterrâneo a abrigar fauna reduzida. Creta, Malta, Sicília, Sardenha e muitas outras ilhas também tiveram seus próprios elefantes e hipopótamos anões.
O nanismo insular - processo no qual uma espécie grande do continente evolui para um tamanho menor por causa de menos recursos e menos predadores - é relativamente comum. Infelizmente, essa mesma adaptação tende a tornar essas espécies mais expostas a mudanças ambientais rápidas, inclusive à chegada de novos predadores, como os seres humanos.
O hipopótamo anão de Chipre era o menor entre os hipopótamos anões do Mediterrâneo. Evidências genéticas indicam que ele se separou do hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) há cerca de 1,5 milhão de anos.
Já o elefante anão cipriota tinha menos de 10% do tamanho do seu ancestral continental, o elefante-de-presas-retas (Palaeoloxodon antiquus), que viveu na Europa e no Oeste da Ásia durante o Pleistoceno Médio e Tardio.
A controvérsia sobre a extinção
Durante muito tempo, diversos arqueólogos e paleontólogos rejeitaram a ideia de que humanos tivessem participado da extinção dessas duas espécies de “megafauna” em Chipre.
Para os céticos, a explicação era outra: ou as pessoas teriam chegado somente depois das extinções, ou então os primeiros grupos humanos seriam pequenos demais para eliminar espécies inteiras.
No começo deste ano, mostramos que seres humanos alcançaram Chipre entre 14.000 e 13.000 anos atrás - portanto, antes da extinção de hipopótamos e elefantes. Também indicamos que, em poucas centenas de anos após a chegada, a população humana provavelmente cresceu para alguns milhares. O que ainda não estava claro era se esse contingente seria suficiente para levar os hipopótamos e elefantes anões ao desaparecimento.
A nova pesquisa publicada hoje responde a essa pergunta ao combinar vários tipos de modelos matemáticos.
Uma população humana pequena poderia causar extinção?
Embora esses animais tenham desaparecido há muito tempo, é possível inferir aspectos de suas populações prováveis porque conseguimos estimar seus pesos a partir de informações paleontológicas. O hipopótamo anão tinha cerca de 130 kg, e o elefante anão passava um pouco de 500 kg.
Também sabemos como converter peso em estimativas de tamanho populacional, longevidade, sobrevivência e fertilidade. Além disso, dá para usar dados de espécies aparentadas que ainda existem - como o hipopótamo-pigmeu e o elefante-africano - para estimar o ritmo de crescimento que essas populações teriam.
Com base nisso, construímos modelos computacionais do que teria acontecido com as duas espécies de mini-megafauna de Chipre após a chegada de caçadores humanos. Estimamos a eficiência da caça, o tempo necessário para processar cada carcaça e a energia de que caçadores-coletores precisam para se manter.
Também calculamos qual fração da dieta humana incluía essas espécies e como essa proporção poderia mudar à medida que os números de hipopótamos e elefantes anões diminuíssem.
Os resultados indicaram que mesmo uma população humana pequena - entre 3.000 e 7.000 pessoas - poderia ter levado, com relativa facilidade, primeiro os hipopótamos anões e, depois, os elefantes anões à extinção.
Segundo o modelo, todo o processo teria durado menos de 1.000 anos. Essa estimativa é compatível com a sequência de extinções sugerida pelo registro paleontológico.
Nossas análises oferecem evidências fortes de que povos do Paleolítico em Chipre foram ao menos parcialmente - senão totalmente - responsáveis por extinções de megafauna no Pleistoceno Tardio e no início do Holoceno.
Chipre foi um local especialmente adequado para testar esses modelos porque a ilha reúne condições quase ideais para examinar se a chegada humana acabou levando ao desaparecimento de sua megafauna.
Isso ocorre porque Chipre representava um caso relativamente simples: na época, era uma ilha pequena, com cerca de 11.000 quilômetros quadrados, e abrigava apenas duas espécies de megafauna.
Assim, nossa pesquisa amplia o entendimento de como até populações humanas reduzidas conseguem desorganizar ecossistemas e desencadear extinções importantes, sobretudo em períodos de mudanças ambientais aceleradas.
Corey J. A. Bradshaw, Professor Matthew Flinders de Ecologia Global e líder de nó no Centro de Excelência do ARC para Histórias e Futuros Indígenas e Ambientais, Universidade Flinders; Christian Reepmeyer, diretor adjunto – Oceania, Instituto Arqueológico Alemão (Deutsches Archäologisches Institut); e Theodora Moutsiou, cientista especialista, Universidade de Chipre
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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