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Cérebro de porcos revive com ajuda do fígado após 50 minutos sem circulação

Laboratório com cientista manipulando órgão artificial conectado a equipamentos para pesquisa médica.

Cientistas conseguiram reativar a atividade em cérebros de porcos mesmo depois de a circulação ter parado, chegando a quase uma hora sem fluxo sanguíneo. Em alguns testes, um achado inesperado de pesquisadores na China ainda permitiu sustentar a funcionalidade por várias horas.

O avanço é relevante para entender como recuperar funções cerebrais após uma parada cardíaca súbita. A principal implicação é a possibilidade de ampliar a curta janela em que médicos conseguem reanimar pacientes com sucesso depois de uma parada cardíaca.

A chave da abordagem foi integrar ao sistema de suporte à vida o fígado do próprio animal, desde que estivesse intacto - o órgão responsável por filtrar e “limpar” o sangue.

Por que a isquemia cerebral encurta a reanimação após uma parada cardíaca

Quando ocorre uma parada cardíaca súbita, o corpo entra rapidamente em colapso por causa da interrupção do fluxo de sangue. A queda no suprimento sanguíneo para tecidos e órgãos é chamada de isquemia e, quando ela atinge o cérebro, pode provocar danos graves e irreversíveis em questão de minutos. É justamente por isso que o intervalo para reanimação após uma parada cardíaca é tão limitado.

Já se sabe que a isquemia em múltiplos órgãos influencia a capacidade de recuperação do cérebro depois de uma parada cardíaca, mas o papel específico de cada órgão ainda não havia sido investigado de forma completa.

Experimentos com miniporcos tibetanos e o papel do fígado

Nos últimos anos, modelos com porcos têm sido usados para testar estratégias de redução de lesão cerebral. Sob supervisão do médico Xiaoshun He, da Universidade Sun Yat-Sen, na China, um grupo de cientistas recorreu ao animal para examinar como o fígado interfere na recuperação do cérebro após isquemia causada por parada cardíaca.

Com 17 miniporcos tibetanos criados em laboratório, a equipe comparou o que acontece quando há, ou não, participação do fígado em um cenário de perda de circulação. Em um conjunto de experimentos, dois grupos de porcos foram submetidos a 30 minutos de isquemia cerebral; em um desses grupos, também foi induzida isquemia no fígado, enquanto no outro isso não ocorreu. Um terceiro grupo, de controlo, não passou por isquemia.

Depois que os animais foram eutanasiados e os cérebros analisados, o grupo de controlo apresentou, como esperado, o menor nível de dano cerebral. Entre os grupos expostos à isquemia, porém, aqueles que não sofreram isquemia hepática exibiram significativamente menos lesão cerebral do que os que tiveram o fígado igualmente comprometido.

Sistema de suporte à vida e perfusão normotérmica do cérebro assistida pelo fígado

Na etapa seguinte, os pesquisadores tentaram inserir um fígado sem danos em um sistema capaz de reanimar um cérebro que havia sido totalmente removido de um porco eutanasiado. Esse cenário dificilmente seria aplicado diretamente em humanos, mas é útil para delimitar as janelas em que a reanimação pode continuar viável.

O sistema básico de suporte envolvia um coração e pulmões artificiais para impulsionar o fluido através do cérebro. Em um dos grupos, o fígado do porco foi acoplado ao circuito - procedimento chamado de perfusão mecânica normotérmica do cérebro assistida pelo fígado.

Primeiro, os cérebros foram ligados aos sistemas de suporte 10 minutos após o início do procedimento. No circuito sem fígado, a atividade elétrica cerebral apareceu em até meia hora, mas foi diminuindo com o passar do tempo.

A equipa também testou atrasos diferentes, conectando cérebros ao sistema assistido pelo fígado após intervalos de 30 minutos, 50 minutos, 60 minutos e 240 minutos. O período mais longo que ainda demonstrou melhor potencial foi de 50 minutos sem sangue: o cérebro voltou a apresentar atividade elétrica e permaneceu nesse estado por seis horas, até o encerramento do experimento.

De forma notável, nos cérebros que ficaram 60 minutos privados de oxigénio, a atividade retornou por apenas três horas antes de desaparecer, o que aponta para um intervalo crítico em que a reanimação pode ser bem-sucedida quando se adiciona um fígado funcional.

Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que o fígado tem um papel importante no desenvolvimento de lesão cerebral após uma parada cardíaca. Os dados abrem novas frentes de investigação sobre dano cerebral e, possivelmente, podem melhorar no futuro as taxas de sobrevivência e a qualidade da recuperação em pacientes humanos.

O estudo foi publicado na EMBO Medicina Molecular.

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