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Pronomes reativam células-conceito no hipocampo

Pesquisador em laboratório explica imagem digital do cérebro para paciente com capacete de eletrodos.

A forma como o cérebro humano guarda na memória certas pessoas parece estar intimamente ligada ao modo como falamos delas.

Neurocientistas mostraram agora que pronomes como "ele", "ela" ou "eles" podem ativar no cérebro o mesmo neurônio que o nome específico de alguém.

Pronomes, nomes e o neurônio que “representa” uma pessoa

Considere estas duas frases: "Shrek e Courtney Love entraram num bar. Ele sentou-se numa mesa." Em experimentos, o pronome "ele" levou ao disparo do mesmo neurônio no hipocampo que a palavra "Shrek".

O hipocampo dá suporte à recuperação, a partir da memória, de palavras, números e conceitos - e os pronomes parecem integrar esse mecanismo.

Células-conceito (as famosas “células Jennifer Aniston”) no hipocampo

A hipótese é que parte dos neurônios do hipocampo funcione como "células-conceito" - mais conhecidas, porém, como células Jennifer Aniston. Em 2005, cientistas observaram que fotos de celebridades como Jennifer Aniston ativavam neurônios específicos no hipocampo.

Nos anos seguintes, pesquisadores reforçaram, com evidências, a existência teórica dessas chamadas células-conceito, que aparentemente armazenam representações de pessoas, conceitos abstratos ou objetos.

Em geral, essas células disparam quando alguém vê a imagem de um indivíduo específico, quando ouve ou lê o nome dessa pessoa, ou quando tenta recordá-la a partir da memória.

Agora, ao que tudo indica, elas também voltam a ser ativadas quando um pronome é usado como substituto do nome da pessoa.

Como o estudo registou a atividade cerebral durante a leitura

O trabalho baseou-se em registos cerebrais de pacientes com epilepsia intratável, que tinham eletrodos implantados profundamente no hipocampo para localizar onde as crises estavam a ocorrer.

Esses implantes também permitem aos cientistas observar como neurônios individuais do hipocampo disparam durante atividades em vigília.

Quando um participante via uma imagem do Shrek, os pesquisadores notavam que um neurônio específico disparava no hipocampo.

O mesmo neurônio também era ativado quando voluntários liam um trecho sobre Shrek e Courtney Love e o nome "Shrek" aparecia no texto.

Com o tempo, a atividade desse neurônio começava a diminuir; porém, quando o pronome "ele" era usado numa frase posterior para se referir ao Shrek, o mesmo neurônio “do Shrek” voltava a disparar. Já quando os voluntários liam o pronome "ela", essa mesma célula não era ativada.

Além disso, se o Shrek não estivesse presente na primeira frase, o pronome "ele" não acionava a célula-conceito associada ao Shrek. Isso indica que apenas pronomes entendidos como referência ao Shrek é que ativam o neurônio do conceito.

"Nós pedimos que os participantes respondessem a uma pergunta no fim das frases sobre quem realizou a ação", explica o neurocientista Matthew Self, do Instituto Holandês de Neurociências.

"Conseguimos prever se os pacientes dariam a resposta correta com base na atividade das células-conceito individuais."

Os voluntários também leram frases em que duas pessoas compartilhavam os mesmos pronomes. Nessa situação, a pessoa que inicialmente provocava mais atividade no hipocampo era a que acabava recebendo o pronome mais adiante.

"Isso pode depender de flutuações aleatórias de atividade, tentativa a tentativa, ou de uma preferência interna por um dos dois personagens na frase", afirma Self.

O que os resultados sugerem sobre memória, linguagem e sintaxe

Os resultados apontam que as células-conceito ajudam o cérebro a ligar informação nova a um conceito já existente.

"Por exemplo, quando lemos sobre o Shrek que 'ele' colocou óculos de sol, podemos atualizar a representação do Shrek e prever sua aparência futura", escrevem os autores do estudo.

De forma reveladora, pessoas que sofreram danos no hipocampo às vezes podem ter dificuldade para produzir ou compreender pronomes.

"Teorias sobre a representação mental em evolução da narrativa durante a leitura sugerem que palavras lidas anteriormente são armazenadas na memória de trabalho para que possam ser combinadas com novas informações", explica a equipe internacional.

"Como as redes cerebrais implementam esse tipo de computação sintática é um tema para pesquisas futuras, que agora pode ser investigado."

O estudo foi publicado na revista Science.

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