Quase dois séculos depois da corrida do ouro na Califórnia, os Estados Unidos estão às vésperas de uma corrida do lítio. Com a procura pelo material a disparar, geólogos do governo aceleram para descobrir onde esse elemento valioso está escondido.
A corrida do lítio nos EUA ganha novos alvos
Em setembro de 2023, cientistas financiados por uma empresa de mineração anunciaram ter encontrado o que pode ser o maior depósito de lítio num antigo supervulcão nos EUA. Já em abril de 2024, pesquisadores do setor público, do outro lado do país, comunicaram a existência de mais um reservatório ainda não aproveitado - e que poderia suprir quase metade das necessidades de lítio da nação.
Nesse caso, o lítio está escondido nas águas residuais da indústria de fracking de gás na Pensilvânia.
O lítio é, sem exagero, o elemento mais importante na transição do país para energia renovável - o material preferido para baterias de veículos elétricos. Ainda assim, existe apenas uma mina de lítio em grande escala em operação nos EUA, o que faz com que, por enquanto, o país tenha de importar o que consome.
No Departamento de Energia dos EUA, autoridades querem alterar esse cenário com urgência. A meta é que, até 2030, todo o lítio seja produzido internamente.
Controvérsias: expansão da mineração de lítio e impactos
A ideia de ampliar a indústria de lítio nos EUA, porém, é altamente controversa: a mineração pode devastar ambientes naturais, libertar (ou lixiviar) químicos tóxicos e avançar sobre terras indígenas consideradas sagradas.
Ao mesmo tempo, as baterias de íon-lítio são vistas como uma tecnologia decisiva na transição global para fontes renováveis, ao armazenar eletricidade gerada pelo vento e pelo Sol. Encontrar uma fonte de lítio que não provoque destruição ambiental além do necessário é fundamental - mas chegar a uma solução “limpa” é complexo.
Lítio nas águas residuais do fracking na Pensilvânia (Marcellus Shale)
A Pensilvânia assenta sobre uma faixa de rocha sedimentar conhecida como Marcellus Shale, rica em gás natural. Essa base geológica foi depositada há quase 400 milhões de anos por atividade vulcânica e inclui lítio oriundo de cinzas vulcânicas.
Ao longo de períodos imensos, a água subterrânea profunda dissolveu o lítio nessas rochas, o que equivale a “minerando o subsolo”, segundo Justin Mackey, pesquisador do National Energy Technology Laboratory, na Pensilvânia.
Mackey e colegas agora verificaram que, quando as águas residuais são trazidas das profundezas por atividades de fracking, elas carregam uma quantidade surpreendente de lítio.
“Só que a gente não sabia quanto havia ali dentro”, disse Mackey em maio.
Pela própria localização, a Pensilvânia está entre os estados líderes em fracking - uma prática controversa que tem alimentado numerosas preocupações ambientais e de saúde.
O fracking funciona com a perfuração em formato de “L” no subsolo, permitindo bombear água para baixo. Essa pressão força substâncias mais profundas, incluindo o gás, a emergirem.
“As águas residuais de petróleo e gás são um problema em expansão. Hoje, elas são apenas minimamente tratadas e reinjetadas”, afirmou Mackey.
Esse tipo de prática pode desperdiçar lítio valioso. Como indica o estudo recente, ao medir de forma adequada as reservas de lítio presentes nas águas residuais do fracking, pode existir uma alternativa para dar um uso mais útil a esse resíduo.
A análise regional baseou-se em dados de empresas de petróleo e gás, que reportam aos órgãos públicos quais elementos aparecem nas suas águas residuais. Mackey e os colegas avaliaram informações recolhidas de 2012 a 2023, provenientes das águas residuais de 515 poços na Pensilvânia.
Os resultados sugerem que a Marcellus Shale “tem capacidade para fornecer rendimentos significativos de lítio num horizonte previsível” - desde que o fracking continue, claro.
Se os cientistas conseguirem extrair mesmo uma quantidade conservadora de lítio das águas residuais do fracking no estado, eles calculam que isso poderia atender a mais de 30 por cento da procura atual dos EUA.
Promessa e incertezas ambientais
O potencial parece muito animador, mas o impacto ambiental de extrair lítio dessas águas residuais ainda não foi explorado. Além disso, esse fluxo de águas residuais só existe enquanto a atividade de fracking continuar.
Para cumprir as metas climáticas, a procura global por lítio deve aumentar 400 por cento nas próximas décadas. Ainda não está claro de que forma as necessidades de lítio serão atendidas - e que novas crises ambientais essas soluções poderão desencadear.
O estudo foi publicado na Scientific Reports.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em maio de 2024.
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