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Episódio Pluvial Carniano: a extinção em massa que abriu caminho aos dinossauros

Dinossauro em paisagem pré-histórica com vulcões fumegantes, vegetação densa e arco-íris ao fundo.

Há cerca de 234 milhões de anos, os continentes da Terra estavam unidos em uma única massa continental gigantesca, e a vida estava prestes a passar por uma mudança profunda. No Triássico Superior, começou a chover e, por aproximadamente dois milhões de anos, a chuva praticamente não deu trégua - um episódio hoje conhecido como Episódio Pluvial Carniano (CPE, na sigla em inglês).

Um grupo internacional de pesquisadores encontrou evidências de que esse intervalo correspondeu a um importante evento de extinção, que ao que tudo indica abriu caminho para que os dinossauros se tornassem os animais dominantes do planeta.

Entre os cientistas envolvidos estão o Dr. Jacopo Dal Corso, da China University of Geosciences, em Wuhan, e o professor Mike Benton, da University of Bristol.

Ao combinar dados e interpretações, a equipe reconstruiu um ponto de virada na história do planeta, com impactos decisivos tanto nos ambientes terrestres quanto nos oceanos.

Episódio Pluvial Carniano

No Triássico Superior, todos os continentes formavam a supercontinente Pangeia, cercada pelo enorme oceano Panthalassa. O interior da Pangeia era predominantemente seco e árido, e as chuvas tendiam a se concentrar mais perto das zonas costeiras.

Esse padrão de aridez, porém, ganhou um novo significado quando, na década de 1970, os geólogos Schlager e Schollnberger identificaram uma camada de rocha cinza-escura nos Alpes Calcários do Norte, na Áustria.

O material apontava para um intervalo de condições mais úmidas “encaixado” entre fases áridas, o que sugeria não um fenômeno local, mas um evento climático de alcance global - o próprio Episódio Pluvial Carniano.

O que teria provocado uma guinada tão brusca para um clima mais chuvoso? A explicação mais provável envolve erupções vulcânicas de grandes proporções na Província de Wrangellia, região que hoje abrange partes do Alasca e da Colúmbia Britânica.

Essas erupções despejaram quantidades imensas de dióxido de carbono na atmosfera.

"As erupções atingiram o pico no Carniano", observa o Dr. Jacopo Dal Corso. "Elas foram tão gigantescas que liberaram volumes enormes de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, levando a picos de aquecimento global."

Extinção em massa e novos começos

Com o aumento dos gases de efeito estufa, a temperatura média global subiu em torno de 3 a 4 °C. O aquecimento intensificou a evaporação dos mares e alimentou um aumento das chuvas em escala mundial.

O resultado foi um período de instabilidade climática que cobrou um preço alto da biodiversidade. Muitas espécies não conseguiram acompanhar a velocidade das mudanças ambientais, culminando em um evento de extinção em massa. Ao mesmo tempo, como os nichos ecológicos não ficam vazios por muito tempo, novas formas de vida passaram a ocupar os espaços deixados por grupos que desapareceram - e, aos poucos, começaram a surgir ecossistemas mais parecidos com os atuais.

"As novas floras provavelmente ofereciam pouco alimento para os répteis herbívoros que sobreviveram", diz o professor Mike Benton.

"Hoje sabemos que os dinossauros surgiram cerca de 20 milhões de anos antes desse evento, mas eles continuaram bastante raros e sem grande importância até o Episódio Pluvial Carniano acontecer. Foi a súbita volta das condições áridas após o episódio úmido que deu aos dinossauros a sua chance."

Dinossauros emergem do Episódio Pluvial Carniano

Quando o clima retornou a um cenário mais seco, os dinossauros aproveitaram a abertura ecológica e passaram a prosperar. Esse mesmo período também registrou o aparecimento das primeiras tartarugas, crocodilos, lagartos e até dos mamíferos mais antigos.

Com a expansão das florestas de coníferas, novos habitats se espalharam, e esses grupos que estavam surgindo diversificaram a vida em terra firme de maneira marcante.

Nos mares, a reviravolta também foi profunda. O Episódio Pluvial Carniano é associado ao início dos recifes de coral modernos e ao surgimento de diversos grupos de plâncton.

Esses sinais apontam para mudanças expressivas na química oceânica e no ciclo dos carbonatos, com efeitos em cascata sobre toda a cadeia alimentar marinha e o aparecimento de novas formas de vida no oceano.

Reconhecendo uma sexta extinção em massa

Até recentemente, a literatura científica destacava cinco grandes extinções em massa ao longo dos últimos 500 milhões de anos - eventos que redirecionaram, de forma dramática, o curso da vida na Terra.

"Até agora, os paleontólogos haviam identificado cinco grandes extinções em massa nos últimos 500 milhões de anos da história da vida", afirma o Dr. Dal Corso.

"Nós identificamos outro grande evento de extinção e, ao que tudo indica, ele teve um papel importante em redefinir a vida em terra e nos oceanos, marcando as origens dos ecossistemas modernos."

Lições deste Episódio Pluvial Carniano

O Episódio Pluvial Carniano fornece pistas valiosas sobre como erupções vulcânicas gigantescas - e as mudanças climáticas desencadeadas por elas - podem gerar consequências de longo alcance.

A liberação de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, favoreceu o aquecimento global, aumentou a pluviosidade e provocou uma sequência de perturbações ambientais.

No presente, as atividades humanas elevam as concentrações de gases de efeito estufa e impulsionam a mudança do clima. Ao estudar eventos como o CPE, os pesquisadores conseguem avaliar melhor como ecossistemas respondem quando são submetidos a mudanças ambientais rápidas.

Eventos vulcânicos gigantescos

O Dr. Dal Corso chama atenção para a dimensão do vulcanismo daquele período ao dizer: "As erupções foram tão gigantescas que liberaram volumes enormes de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, e houve picos de aquecimento global."

A frase reforça como processos naturais podem reconfigurar o clima do planeta em pouco tempo.

"Eu já havia observado uma troca na flora e uma catástrofe ecológica entre os herbívoros lá em 1983, quando concluí meu doutorado", comenta o professor Benton.

A trajetória do pesquisador, ao longo de décadas, exemplifica como o conhecimento científico vai se consolidando: evidências vindas de áreas diferentes se acumulam, se conectam e ajudam a montar a história complexa da Terra.

Investigar acontecimentos de dezenas ou centenas de milhões de anos atrás também exige cooperação entre várias disciplinas, como geologia, paleontologia e ciência do clima.

Achados como o do Episódio Pluvial Carniano mostram o valor de pesquisas interdisciplinares para aprofundar o entendimento sobre o passado do planeta.

Por que isso importa?

Diante dos desafios ambientais atuais, revisitar episódios como o Episódio Pluvial Carniano pode ajudar a orientar escolhas e debates.

Se a atividade vulcânica natural foi capaz de desencadear mudanças tão drásticas, a comparação inevitavelmente levanta perguntas sobre o impacto do aquecimento provocado por ações humanas.

Como a vida na Terra pode se adaptar - ou ter dificuldade para se adaptar - às transformações ambientais em curso?

O estudo completo foi publicado na revista PNAS.

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