Veados não precisam ver um predador para ficar em alerta. Uma pesquisa recente em florestas do sudeste da Alemanha indica que apenas o cheiro de grandes carnívoros já é suficiente para fazer os veados mudarem a rotina - e essa mudança pode aumentar as chances de sobrevivência de árvores jovens.
O trabalho colocou à prova uma ideia direta: se os veados percebem risco por perto, tendem a passar menos tempo beliscando mudas. E, neste caso, o “risco” foi apresentado da forma menos glamourosa possível: urina e fezes de predadores.
Um experimento de cheiro em florestas reais
Pesquisadores da Universidade de Freiburg montaram parcelas experimentais em áreas florestais onde linces e lobos foram reintroduzidos.
Em 11 locais diferentes, cada área tinha quatro parcelas, cada uma marcada com um odor distinto: lobo, lince, vaca e água (o controle). Em cada parcela, foram plantadas 30 mudas.
Com o passar do tempo, o grupo avaliou as mudas em busca de danos de pastejo. Além disso, usou armadilhas fotográficas para registrar o que cervos-vermelhos e corços realmente faziam - com que frequência apareciam e por quanto tempo permaneciam no local.
O padrão geral foi nítido. Onde havia cheiro de predador, os veados apareciam menos e, quando apareciam, não ficavam tanto tempo. Como consequência, as mudas nessas parcelas sofreram menos danos do que as árvores nas parcelas de controle.
O cheiro de lince assustou mais
Um detalhe que chamou atenção foi que o odor de lince pareceu intimidar os veados mais do que o odor de lobo.
A interpretação dos autores é que isso pode ter relação com a forma de caça. Linces são predadores de emboscada - perseguem e atacam a curta distância - então os veados podem encarar sinais de lince como uma ameaça mais imediata, do tipo “ele pode estar bem aqui”.
Há também um componente de histórico local. Durante o estudo, os lobos ainda estavam a caminho de se estabelecer na região, enquanto os veados já tinham mais experiência convivendo com linces.
Ou seja, pode ser que os veados tenham tido mais tempo para “aprender” que cheiro de lince, muitas vezes, vem acompanhado de problemas reais.
Por que isso importa para as florestas
O excesso de pastejo é um problema enorme em várias partes da Europa. Populações muito altas de veados podem destruir árvores jovens, atrasar a regeneração florestal, reduzir a biodiversidade e gerar perdas caras para o setor florestal.
A maior parte das soluções - como cercas, protetores de mudas, abate seletivo e monitorização contínua - exige muita mão de obra e custa caro. Por isso, a ideia de que a presença de predadores (ou mesmo apenas sinais deles) pode deslocar o comportamento dos veados é atraente: ela sugere uma forma mais natural, de baixa intervenção, de proteger o rebrotamento.
“Em um momento em que os debates sobre a conservação de grandes carnívoros muitas vezes se concentram em conflitos, nosso estudo destaca os benefícios que essas espécies trazem para as paisagens”, disse o coautor Walter Di Nicola.
“A presença de carnívoros, mesmo que apenas o cheiro deles, poderia ajudar a reduzir os problemas ecológicos e económicos associados ao pastejo de populações de veados excessivamente abundantes.”
Locais onde predadores não existem
A equipa afirma que esperaria efeitos semelhantes em países como o Reino Unido, mesmo com a ausência de lobos e linces por gerações. A lógica é que os veados ainda mantêm uma desconfiança “de fábrica” em relação a predadores, mesmo sem nunca terem encontrado um.
Ao mesmo tempo, eles consideram que o impacto pode ser mais fraco no início e ficar mais forte caso os predadores voltem e os veados comecem a reaprender o que esses cheiros significam na prática.
“No Reino Unido, esperaríamos efeitos semelhantes, mas provavelmente mais fracos. Os veados ainda têm algum medo inato de predadores, mesmo que esses predadores estejam ausentes há gerações”, disse Di Nicola.
“Onde os predadores voltam, esperamos que essas respostas - e seus benefícios ecológicos - se tornem mais fortes ao longo do tempo.”
Um resultado útil, com uma grande ressalva
Os pesquisadores fazem questão de não exagerar a conclusão. O desenho do estudo usou odores concentrados, colocados de um modo que tornava fácil para os veados detectá-los.
A natureza não funciona de forma tão organizada. No ambiente natural, sinais de predadores são irregulares, dispersos e imprevisíveis - e relações reais entre predador e presa envolvem deslocamento, pressão de caça, mudanças nos grupos de veados, estações do ano e aprendizagem ao longo do tempo.
Portanto, isso não reproduz integralmente o que acontece quando predadores estão de facto a viver e caçar num ecossistema.
Ainda assim, o experimento evidencia algo importante: os veados não reagem apenas quando são perseguidos ou atacados. Eles respondem ao risco - até mesmo à sugestão de risco - e isso, por si só, já pode alterar o que ocorre numa floresta.
No fim das contas, o estudo reforça que grandes carnívoros moldam as paisagens de maneiras que vão além de “predadores comem presas”.
Eles também podem reconfigurar o comportamento - para onde as presas vão, quanto tempo ficam e o que se atrevem a comer - e essas escolhas pequenas podem repercutir na recuperação florestal.
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