Até um terço das pessoas com diagnóstico de depressão não melhora com antidepressivos ou com psicoterapia.
Quando isso acontece, o médico pode indicar uma terapia de neuromodulação - isto é, uma intervenção que ajusta a atividade cerebral para aliviar os sintomas depressivos. Uma modalidade de neuromodulação que vem ganhando destaque nas pesquisas é a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS).
Como a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) atua
A tDCS aplica ao cérebro uma corrente elétrica fraca por meio de eletrodos presos à cabeça com uma faixa ou tira. Esse estímulo altera a excitabilidade do tecido cerebral que fica logo abaixo dos eletrodos. Ao diminuir a excitabilidade em áreas hiperativas e aumentá-la em regiões hipoativas - sobretudo em circuitos ligados às emoções - é possível contribuir para a redução dos sintomas de depressão.
A tDCS é um tratamento seguro e eficaz e, em alguns estudos, mostrou ajudar pacientes a entrar em remissão e permanecer sem sintomas por até um mês. Ainda assim, ensaios clínicos anteriores com tDCS exigiam que as pessoas fossem a uma clínica ou hospital para realizar as sessões, apesar de o equipamento ser bastante portátil.
Ensaio clínico: tDCS em casa com apoio virtual
Um ensaio clínico randomizado e controlado recente demonstrou que a tDCS - aplicada pela própria pessoa em casa, com suporte virtual online - pode gerar reduções importantes nos níveis de depressão.
Para realizar o estudo, os pesquisadores recrutaram 174 pacientes no Reino Unido e nos EUA com diagnóstico de transtorno depressivo maior. Aproximadamente 63% desses participantes foram classificados como tendo depressão resistente ao tratamento.
Metade das pessoas recebeu tDCS domiciliar. No início, o protocolo foi de 30 minutos por dia, cinco vezes por semana, durante três semanas. Depois, a frequência foi reduzida para três sessões por semana, ao longo de sete semanas. Como as aplicações aconteciam na casa do paciente, com apoio remoto, não foram necessárias visitas presenciais de médicos ou enfermeiros.
A outra metade integrou o grupo de controlo. Esses participantes passaram por uma condição simulada (sham): usavam a faixa com os eletrodos, mas não recebiam qualquer estimulação elétrica.
Após as dez semanas iniciais do estudo, os pacientes do grupo tDCS puderam escolher continuar com o tratamento três vezes por semana. Já os que estavam na condição simulada também receberam a opção de seguir o protocolo ativo.
De modo geral, a tDCS em casa foi bem tolerada. Houve apenas alguns relatos de reações adversas (principalmente irritação na área onde ocorria a estimulação).
No início e no fim do estudo, os participantes dos dois grupos preencheram uma escala de avaliação de depressão. O instrumento faz uma série de perguntas e, ao final, atribui uma pontuação.
Qualquer resultado acima de dez indica depressão. Houve melhora tanto no grupo de tDCS ativa quanto no grupo simulada - porém, as pontuações caíram muito mais no grupo que recebeu tDCS, evidenciando uma redução superior a dois pontos em relação ao grupo de controlo.
Terapias de neuromodulação
O estudo concluiu que a tDCS em casa tem enorme potencial como alternativa conveniente, segura e de bom custo-benefício para tratar pessoas com depressão resistente ao tratamento.
Isso a coloca em vantagem perante outras estratégias de neuromodulação - como a estimulação magnética transcraniana (TMS). A TMS ajusta a atividade cerebral ao aplicar pulsos magnéticos por meio de uma bobina eletromagnética posicionada junto ao crânio.
A TMS mostra eficácia em 50% dos casos de depressão resistente ao tratamento quando combinada com psicoterapia. O problema é que a TMS só pode ser feita em clínica ou hospital, e exige sessões de 30 minutos, pelo menos cinco vezes por semana, durante até seis semanas para que haja efeito.
Em comparação com a eletroconvulsoterapia (ECT), que também faz a corrente elétrica atravessar o cérebro, a estimulação transcraniana por corrente contínua tende a ter muito menos efeitos colaterais. Além disso, a ECT é bem mais invasiva do que a tDCS, pois requer anestesia. Já a tDCS utiliza uma corrente fraca aplicada por dois pontos de contacto.
Limitações do estudo e próximos passos
Os autores, no entanto, destacam um ponto relevante sobre o perfil de resistência ao tratamento entre parte dos participantes.
Pessoas com histórico de depressão e que não responderam a três ou mais terapias foram excluídas do estudo. Por isso, pesquisas futuras precisarão esclarecer até que ponto a tDCS domiciliar é eficaz - e se também pode funcionar em casos mais graves de depressão resistente ao tratamento.
Outra questão importante a ser analisada em estudos seguintes é se o ambiente doméstico e a rede de apoio social do paciente influenciam a eficácia do tratamento. Os próximos passos incluem considerar a variabilidade das causas da depressão, a forma como ela se manifesta e também as diferenças de aceitação e de enfrentamento.
Também será essencial que pesquisas futuras controlem diferenças fisiológicas ligadas a idade, sexo, etnia, condição socioeconómica e muitos outros fatores que podem interferir no curso da depressão.
Ainda assim, este ensaio indica que a aplicação de tDCS em casa pode melhorar significativamente o humor de pessoas com diagnóstico de depressão que não obtiveram resposta com outras abordagens terapêuticas.
Amanda Ellison, Professora de Neurociência, Universidade de Durham
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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