Pode parecer estranho, mas o mundo está cheio de fantasmas.
Não estamos falando das aparições de pessoas que morreram e teriam ficado por aqui depois que seus corpos se foram - e sim de um conjunto de animais pálidos, discretos e difíceis de ver, que receberam nomes inspirados nos espectros que rondam a nossa imaginação.
Para entrar no clima da temporada assustadora, venha celebrar essas criaturas inquietantes - e, junto com elas, a biodiversidade maravilhosa do nosso planeta, bonito e infinitamente fascinante.
Fantasmas bem reais na natureza
Morcego-fantasma (Macroderma gigas)
O morcego-fantasma é o maior micro-morcego da Austrália e o único morcego carnívoro do continente. Ele se abriga em cavernas e em antigos túneis de minas e só sai à noite, quando procura comida: insetos, rãs, pequenos répteis, aves e até outros morcegos menores, triturando os ossos das presas com mandíbulas muito fortes.
Apesar da aparência clara e “assombrada” sugerir um bicho intimidador, o corpo desse morcego é pequeno: mal passa de um tamanho pouco maior que a palma da mão. Hoje, a espécie é considerada ameaçada, porque seus ambientes estão sendo perdidos e degradados pela atividade mineradora. Esse, sim, é o verdadeiro horror.
Entre praias, mar profundo e escuridão
Caranguejos-fantasma (Ocypodinae)
Já os caranguejos-fantasma são bem mais comuns. Eles vivem em praias de marés (a faixa entre-marés) nas regiões tropicais e subtropicais do planeta e se deslocam com tanta rapidez que é fácil nem notar se você piscar. Em geral, têm coloração clara, o que os deixa quase invisíveis sobre a areia; são ativos à noite e aparecem e somem do campo de visão como… bem, como fantasmas.
Eles exibem longos e evidentes pedúnculos oculares, conseguem produzir sons ásperos ao esfregar as pinças e até rangem “dentes” no estômago para rosnar para quem ameaça. Algumas espécies ainda mudam de cor para melhorar a camuflagem. Com um kit de sobrevivência desses, dá para entender por que a natureza insiste tanto em fazer caranguejos.
Tubarões-fantasma (Chimaeriformes)
Nas profundezas frias e escuras do oceano, há muitas presenças estranhas e silenciosas - e, entre as mais incomuns, estão as quimeras, também conhecidas como tubarões-fantasma ou peixes-assombração. Apesar do apelido, elas não são tubarões: formam uma ordem de peixes cartilaginosos, parentes próximos de tubarões e raias, e aparecem principalmente em águas profundas ao redor do mundo, com exceção das regiões polares.
O nome combina com o visual: elas parecem mesmo sinistras, com sulcos e pontinhos no focinho e no rosto que lembram marcas de corte. Ainda assim, são animais relativamente esquivos - a menos que você seja um crustáceo ou uma estrela-do-mar. Nesse caso, o encontro pode terminar com você esmagado entre as placas dentárias do tubarão-fantasma e devorado.
Esses sulcos são chamados de canais da linha lateral, e eles fazem parte do sistema sensorial das quimeras, assim como os pontos. Nos locais do oceano onde muitas delas vivem, a luz do Sol não chega; então, para se orientar e detectar presas, é preciso usar outros sentidos, lá embaixo, na escuridão permanente.
Polvo-fantasma (“Casper”)
Esse polvinho simpático é tão raro que ainda não recebeu um nome formal. Ele foi observado em águas abissopelágicas em 2016, abaixo de 4.000 metros de profundidade (13.123 pés) e, como nenhum exemplar foi coletado, os cientistas não conseguiram definir com precisão em que ramo da árvore evolutiva dos polvos ele se encaixa.
De forma informal, foi batizado de "Casper" por ser fofo, pálido e translúcido, como um fantasminha amigável - e algumas coisas já são conhecidas sobre ele. Ele deposita os ovos nos caules de esponjas marinhas mortas que cresceram sobre nódulos de manganês no fundo do mar.
Depois disso, envolve a massa de ovos com o próprio corpo para protegê-los durante a incubação. Esse comportamento é típico em polvos: a mãe, literalmente, morre para proteger os ovos, definhando silenciosamente de fome para aumentar ao máximo a chance de sobrevivência da prole.
Assim, de certo modo, todo polvo é um fantasma - um “retornado” do sacrifício dos pais, espalhando-se pelo oceano.
Insetos e anfíbios com nomes assombrados
Mariposa-fantasma (Hepialus humuli)
Existe uma porção de mariposas que, no dia a dia, recebem o apelido de “mariposa-fantasma”, mas a mariposa-fantasma por excelência é a Hepialus humuli, nativa de grande parte da Europa. Os machos são de um branco espectral, enquanto as fêmeas exibem um dourado de padrão delicado; acredita-se que o apelido tenha vindo justamente dos machos brancos, já que, em mitos e folclores, mariposas claras costumam ser associadas às almas de quem já morreu.
Por outro lado, o nome pode ter relação com o ritual curioso de cortejo dos machos. Na época de encontrar parceira, eles se reúnem em um encontro de exibição para fazer uma dança de sedução: batem as asas, pairam subindo e descendo e, ao mesmo tempo, liberam feromônios fedorentos que, ao que parece, são extremamente atraentes - pelo menos se você for uma mariposa.
Rãs-fantasma (Heleophrynidae)
À primeira vista, não há nada de especialmente “fantasmagórico” nas rãs-fantasma, da família Heleophrynidae, nativas da África do Sul. Nem sequer é certo por que elas recebem esse nome; há quem diga que seria porque aparecem com frequência em Skeleton Gorge, mas ninguém sabe ao certo.
O que se sabe é que elas representam o grupo mais antigo conhecido entre as chamadas “rãs novas”, ou Neobatrachia, quando comparadas às demais espécies do subordem.
Elas passam quase toda a vida na água de riachos de correnteza forte, agarradas às pedras com dedos grandes e muito aderentes, e saem para se reproduzir quando a Lua está cheia, como acontece com outros anfíbios. Talvez, no fim das contas, as rãs sempre tenham sido os verdadeiros lobisomens.
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